Gazeta Socioeconômica

Nova política, velha administração pública

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O governo Jair Bolsonaro assumiu o poder executivo com a bandeira de estabelecer uma nova forma de se fazer política. Com apenas pouco mais de quatro meses de governo, não é possível ainda avaliar de maneira clara o que é essa nova política e muitos menos os efeitos dela. Mas, em relação à administração pública algumas pistas parecem apontar para uma direção que vinha sendo superada desde a promulgação da Constituição de 1988.

Alvorada no Congresso Nacional.
Foto: R. Cifuentes

Os livros mais antigos costumam citar sempre três modelos de administração pública: o modelo patrimonialista, o burocrático e o gerencial. A abordagem mais contemporânea inclui ainda o modelo de governança pública.

O modelo patrimonialista é aquele que existia nos tempos que antecederam a criação do Estado Moderno, logo após a Revolução Francesa. Era um modelo de gestão baseado na pessoa de um soberano ou de um líder, onde a esfera pública, geralmente, se confundia com a esfera privada. A estrutura administrativa era ocupada por pessoas de confiança do líder que, não necessariamente, apresentavam pré-requisitos para acessar o cargo. O nepotismo é uma prática derivada desse modelo, onde é comum nomear amigos e familiares para cargos públicos em razão de uma presumida lealdade.

O modelo burocrático, que se consolidou com o Estado Moderno, estabeleceu novas diretrizes para a administração pública: formalidade, impessoalidade, profissionalismo e mérito para o acesso à cargos públicos. A administração tornou-se mais técnica. No entanto, o excesso de formalismo fez com que este modelo se concentrasse mais nos processos do que nos resultados que deveriam ser entregues aos cidadãos.

Anoitecer no Congresso Nacional.
Foto: R.Cifuentes

Surgiu então, o modelo gerencial, mais focado nos resultados, sempre aferidos por metodologias científicas de avaliação que sejam capazes de permitir a correção de rumos das políticas públicas que estão sendo implementadas. O foco sai dos processos e se volta para os atores sociais. Deste ponto, surge ainda o modelo de governança pública, onde a atuação da sociedade civil organizada passa a ter mais peso por meio de mecanismos representativos, como conselhos e comitês.

O que tem sido noticiado pela imprensa, e pelo próprio governo, mostra os caminhos que a administração pública vem seguindo neste novo governo. A presença constante dos filhos do presidente, mesmo sem ocuparem cargo público no poder executivo, é algo que recorda o modelo patrimonialista. O episódio onde o Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, um ocupante de cargo público do executivo, foi preterido em uma reunião entre Bolsonaro e Trump, em favor do filho Eduardo, é uma demonstração da confusão entre as esferas pública e privada. E não é só na “primeira família” que isso pode ser notado. O presidente da Caixa Econômica Federal vem sendo acusado de nomear o próprio personal trainer para o Conselho do Banco. Em outra frente, o governo extinguiu por decreto uma série de conselhos representativos da sociedade civil no governo, se desviando de qualquer aproximação com modelos de governança pública.

Manifestação na Esplanada dos Ministérios.
Foto: R. Cifuentes

Modelos de administração pública são construções teóricas resultantes da observação de várias realidades, em espaços históricos e geográficos distintos. Elementos de um modelo podem coexistir com elementos dos demais. Para avaliar, e categorizar a administração pública, deve se identificar quais são os elementos predominantes. Desde a redemocratização, o Brasil vem tentando superar elementos patrimonialistas de sua gestão pública, caminhando para um modelo mais próximo do gerencialismo. Mas, até o momento, parece que o governo de Jair Bolsonaro decidiu interromper essa caminhada e voltar, aceleradamente, para o velho patrimonialismo.

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